Somos Palmiteiros, e agora?

Por Cléo Goulart

 

Em uma sociedade totalmente alienada como a do século XXI, a tal da “palmiteiragem” seria um dos assuntos com mais poder de discórdia entre nós, negros do sexo masculino. O que seria ser palmiteiro?

De acordo com as próprias fontes oriundas da palavra, em um resumo simples seria: homens negros que por escolha se relacionam com mulheres brancas, podendo ter a opção de um relacionamento biológico com mulheres negras. Até certo ponto, você poderia dizer: “Tudo bem, mais então quer dizer é errado um homem negro se relacionar com alguém de cor diferente? E o tal do “amor”,onde fica?

Até certo ponto, eu me fazia essas certas perguntas na minha cabeça. Até descobrir que nós, homens negros somos mesmo palmiteiros. E somos mesmo… Mas calma, homens, não viemos aqui jogar pedras em nós mesmos. Vamos entender dois conceitos que faram nossa massa cefálica refletir sobre tais taxações.

Voce, jovem negro pode ser um palmiteiro mesmo sem saber ! Faça uma breve analise de seus relacionamentos anteriores: Com quantas meninas da sua cor você já teve um relacionamento? Se sua resposta for duas, uma ou nenhuma, e se você não sabe o porque disso, seja bem vindo ao time dos Palmiteiros Inconcientes. Deixa eu te explicar melhor…

Não somos culpados (ou somos?), mas na nossa sociedade a mídia explora esse conceito do homem negro com a mulher branca. Me lembro da minha época de hip-hop. Os rapper negros, a grande maioria, nos seus relacionamentos, a mulher era alta, pele clara e loira ou cabelos pretos. Mas nos clipes de maior apelo sensual, os padrões das mulheres eram invertidos: mulheres negras de pele clara ou negras mesmo. Isso nos faz refletir um grande problema do qual a mídia em todos os seus âmbitos comerciais ou de entretendimento explora de forma massiva: a mulher branca seria o padrão do relacionamento familiar e a mulher negra seria o padrão do relacionamento apenas para o prazer sexual. Estranho, não? Mais isso já é um problema antigo, da época do chamado Brasil-Colonia: existiam lugares de “criação de pretinhos”, como se fossem porcos que reproduzem em um local separado, e as mulheres negras ficavam nesse lugar apenas reproduzindo. Além disso, os filhos dos senhores passavam por um processo de “iniciação” onde a primeira transa era com uma mulher negra (escravizada), como se fosse um processo para se tornar homens. Percebe como o cunho sexual da mulher negra como “mulher pra transar” é bem antigo?

A mídia, para poder “quebrar o julgo de racismo”, ultiliza em suas propagandas homens negros com mulheres brancas achando que assim poderão evitar o coro social de “mídia racista”, mas automaticamente é incentivado a palmitagem no campo áudio-visual. Quem nunca viu uma propaganda com uma uma mulher clara com um homem negro interpretando um belo casal? As mulheres negras infelizmente não fazem parte do padrão de família imposto pela sociedade ocidental. Muitas mulheres negras hoje choram e sofrem por serem deixadas de lado por culpa disso. A palmitagem é um assunto de importancia em termos raciais.

Mas calma, homens! Senão sabíamos, eramos Palmiteiros Inconcientes. Eu mesmo percebi isso em plenos 23 anos de vida quando me vi me relacionando com a primeira mulher negra de pele clara, e fazendo uma auto reflexão de que nunca fiquei com uma negra. E por grande parte de influencia midiática. Mas como disse o Messias dos Judeus: “Teus pecados estão perdoados, va e não peques mais”.

Existem por outro lado os Palmiteiros Concientes, aqueles homens negros que sabem de tudo isso e mesmo assim privilegiam a falta de melanina nas suas relações afetivas e biológicas. Homens que sabem do clamor das negras abandonadas devido a uma cultura altamente doutrinaria que interfere até na escolha dos relacionamentos. Fazem questão de rebaixar a própria gente. Claro, a casos do amor, de estar apaixonado, das emoções por outra pessoa. Mas tudo é uma questão de consciência que tem que haver de ambas as partes. É tipo pensar:  sua mãe e seu pai, ambos tem consciência de que um é branco e por isso tem privilégios e isso é um fato nítido. Isso reflete na vida das mulheres negras, que por não serem o “padrão” , se envolvem em relacionamentos abusivos.

Não estou aqui pra julgar você, jovem palmiteiro. Mas pare e reflita um pouco nessa breve abordagem. Percebe que vai além da atração? Percebe que há praticamente uma conspiração a favor de tal ato? Consegue perceber que por esse tipo de opção estamos fazendo milhares de mulheres negras chorarem e se envolverem em casos altamente abusivos por nossa consequência? Somos palmiteiros… E agora?

 

 

 

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